A Travessia

Em 1922 Sacadura Cabral e Gago Coutinho realizaram a primeira travessia área do Atlântico Sul, ligando Lisboa ao Rio de Janeiro. Tão importante quanto o ato foi o facto de terem sido testados aparelhos de navegação que marcaram a história da aviação.

 

A História
O início do projeto da Travessia Aérea do Atlântico Sul teve lugar em 1919, por ocasião da visita do Presidente do Brasil a Portugal, quando Sacadura Cabral lançou a ideia de comemorar o primeiro centenário da independência do Brasil, em 1922, realizando uma viagem aérea entre Lisboa e o Rio de Janeiro.

Para que esta esta viagem pudesse ser concretizada, era necessário criar-se um método de navegação que permitisse pilotar a aeronave com precisão sobre a imensidão do oceano. Com essa finalidade, Gago Coutinho adaptou ao Sextante um horizonte artificial e desenvolveu em colaboração com Sacadura Cabral, o corretor de rumos, que permitia calcular graficamente o ângulo entre o eixo longitudinal da aeronave e o rumo a seguir, considerando a intensidade e direção do vento.

O novo método foi testado na viagem Lisboa-Madeira em 1921, que foi concluída em cerca de sete horas e meia e demonstrou a precisão destes inovadores instrumentos que iriam ser determinantes para o sucesso da travessia aérea do Atlântico Sul.

Tão ou mais importante que a viagem, foi o facto de Gago Coutinho ter provado que era possível realizar voos de grande distância com precisão, utilizando um novo tipo de sextante por si inventado.
Este aparelho de navegação viria a ser utilizado nas décadas seguintes na indústria aeronáutica.

 

 

A Travessia

O início da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, deu-se em Lisboa às 7h00 do dia 30 de março de 1922, protagonizada pelo Almirante Gago Coutinho (navegador) e pelo Comandante Sacadura Cabral (como piloto) a bordo do hidroavião Fairey III, batizado “Lusitânia” e concebido especialmente para esta viagem, tendo como destino final o Rio de Janeiro. 

Foi uma viagem bastante atribulada, onde foram utilizadas três aeronaves.

A primeira etapa da viagem foi concluída, no mesmo dia, sem incidentes em Las palmas, nas Ilhas Canárias, embora tenha sido notado, por ambos, um excessivo consumo de combustível.

No dia 5 de abril, partiram rumo à Ilha de São Vicente, no Arquipélago de Cabo Verde, cobrindo 850 milhas. Lá se demoraram até 17 de abril para reparos no hidroavião - que fazia água nos flutuadores -, tendo partido das águas do porto da Praia, na Ilha de Santiago, rumo ao Arquipélago de São pedro e São Paulo, em águas brasileiras, onde amararam, sem o auxílio do vento, no dia 18. O mar revolto naquele ponto, entretanto, causou danos ao Lusitânia, que perdeu um dos flutuadores. Os aeronautas foram recolhidos por um Cruzador da marinha Portuguesa, que os conduziu a Fernando de Noronha. Apesar de exaustos pelo voo de 1 700 quilômetros e pelo pouso acidentado, comemoraram o achamento, com precisão, daqueles rochedos em pleno Atlântico Sul, apenas com o recurso do método de navegação astronômica criado por Gago Coutinho.

Com a opinião pública portuguesa e brasileira envolvida no feito, o Governo Português enviou outro hidroavião Fairey, batizado como Pátria, a partir de Fernando de Noronha, que chegou no dia 6 de maio. Tendo o hidroavião sido desembarcado, montado e revisto, a 11 de maio decolaram de Noronha. Entretanto, nova fatalidade para os aeronautas, quando, tendo retornado e sobrevoando o Arquipélago de São Pedro e São Paulo para reiniciar o trecho interrompido, uma pane no motor obrigou-os a amarar de emergência, tendo permanecido nove horas como náufragos, até serem resgatados por um cargueiro inglês - o Paris City, em trânsito na região.

Reconduzidos a Fernando de Noronha, aguardaram até 5 de junho, quando lhes foi enviado um novo Fairey F III-D (o n.° 17), batizado pela esposa do então Presidente do Brasil, Epitáceo Pessoa (1919-1922), como Santa Cruz. Transportado de Portugal, o Santa Cruz foi posto na água no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, tendo levantado voo rumo a Recife, fazendo escalas em Salvador, Porto Seguro, Vitória e dali para o Rio de Janeiro, então Capital Federal.

 

 

A Chegada

E foi assim, que os heroicos oficiais foram recebidos em festa pela população do Rio de Janeiro, a 17 de junho de 1922. 

Embora a viagem tenha consumido setenta e nove dias, o tempo de voo foi de apenas sessenta e duas horas e vinte e seis minutos, tendo percorrido um total de 8 383 quilómetros.

Estava assim concluída a primeira travessia aérea do Atlântico Sul pelos oficiais de Marinha Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

Estes aeronautas haviam concluído com êxito não apenas a primeira travessia do Atlântico Sul, mas pela primeira vez na História da Aviação, tinha-se viajado sobre o Oceano Atlântico apenas com o auxílio da navegação astronômica a partir do aeroplano.